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O DIA EM QUE DEUS NOS VISITOU (Pastor Ricardo Lemgruber)

O fim da tarde estava mais abafado que o normal. A viagem cansativa estava chegando ao fim. José caminhava pelas vielas em busca de um quarto. A cidade estava muito cheia; gente de todo canto se amontoava esperando a chance de se apresentar para o censo.

Maria estava aflita. O tempo estava próximo. O calor que sentia indicava que seu corpo queria descanso. A barriga baixa não deixava mais dúvidas: a criança já se anunciava. Segurou firme nos braços de José. Seu olhar denunciava: precisavam de um canto sossegado e mãos experientes para ajudar a ter uma boa hora.

Estavam tensos e meio perdidos na correria daquela pequena multidão. A noite já se avizinhava e nenhuma hospedaria se lhes abria as portas. Amarraram a pequena jumenta próximo a uma porteira na estrada de Belém. Estenderam, na grama fina do canto da estrada, o manto que cobria o lombo do animal. José apoiou Maria até ela se sentar e recostar-se suada nas réguas da cerca. O vento já esfriava aquele fim de dia. Havia, por certo, um pouco de medo nos olhares trocados.

Maria sentia dores mais fortes. Intercalavam-se momentos de contrações mais agudas e relaxamento. A cada nova pontada, o tempo parecia correr mais. José já sabia que horas difíceis os esperavam. Sentiu que precisava dar segurança à esposa. Sentou-se e a fez reclinar sua cabeça em seu peito. De algum jeito, dizia silenciosamente que, embora sozinhos, tinham um ao outro.

A noite caiu rápido. O frio chegou cortando. O vento limpou as poucas nuvens do céu e as estrelas passaram a pintar o firmamento. Uma, em particular, pareceu despontar mais cintilante no céu. Iluminava, estranhamente, um telhado de sapê ao fim de um pasto que se estendia para além da cerca que apoiava o corpo inchado e prenhe de Maria. Por cima, cobria o monte uma pequena floresta de árvores. Essas que os romanos usavam para fabricar cruzes.

José se levantou e, correndo, se aproximou do estábulo. Era um bom lugar. Bezerros dormiam protegidos do frio albergados pelo teto e pelo calor do corpo de suas mães. O chão estava seco, forrado por palha. Era a hospedaria que lhes esperava. Voltou apressado e tomou Maria pela mão. Ajudou-a a levantar e, com o corpo, a fez se equilibrar e recobrar a firmeza das pernas dormentes da viagem. Catou os panos e sacolas espalhados pelo chão, desamarrou o animal e se dirigiu, com Maria, para a estrebaria.

Lá, como que pedindo licença aos animais, aninharam-se num canto menos aberto. A movimentação acordou uns bichos. Mas, estranhamente, tudo era muito familiar. Só lhes restava esperar o dia amanhecer. Dormiram.

O breve cochilo de Maria, acolhida por entre os braços de José, foi interrompido por uma dor lancinante. José, de um salto, ajudou-a a se deitar de barriga para cima. Alternava entre firmar sua cabeça e massagear seu ventre. Os gritos despertaram os animais que ainda dormiam. Todos, como quem compreende a dor e a solidão, solidarizavam-se pelo olhar e pelo silêncio. Duas ou três pontadas mais fortes antecederam o momento em que José viu cair em suas mãos um menino moreno molhado pelos líquidos da mãe. Seu primeiro suspiro de vida veio seguido de um choro forte.

Desajeitadamente, José limpou seu corpinho frágil, com uma faca cortou-lhe o cordão e o fez deitar sobre o seio de Maria. Lágrima, suor e sangue se misturaram entre Maria e o Menino e se entranharam pelos panos e palhas daquele lugar iluminado pelas estrelas e pelo brilho dos olhos dos bichos.

José rodou pelo estábulo, rasgou um pedaço de linho novo de sua túnica e secou o umbigo da criança. Envolveu-a numa manta que trouxeram de Nazaré. Tentou arrumar o espaço e se acocorou para ver melhor o rosto do filho recém chegado. Maria sorriu serena e aliviadamente.

Apesar de tudo, o Menino nasceu! Nasceu bem: forte, chorão e com fome. Os seios de Maria já davam as primeiras gotas do leite que acalmaria a criança cheia de vida que a vida lhes brindara.

José estava meio perdido. O medo, porém, já dava lugar à convicção da esperança. Maria, cansada, mas profundamente feliz, acariciava o corpo deitado sobre o seu. José se estendeu ao lado dos dois.

Sabiam que o nome devia ser Jesus. O pequeno Menino mamou. José o pôs no colo, agasalhou-o e deu voltas pelo estábulo cantando uma canção de sua infância na Galiléia. Depois de ter arrotado, Jesus adormeceu farto pelo leite da mãe e pela voz do pai.

José o deitou dentro de um coxo de madeira da floresta de trás do estábulo. Distante do chão, forrado por feno e palha bem seca, a manjedoura protegia o Menino dos insetos e do frio. Apesar do cheiro, o lugar estava limpo: só havia animais. José acomodou Maria em seu corpo e adormeceram. Os bichos velaram-lhes o sono.

A história conta bem pouco sobre sua infância. Sabe-se, apenas, que cresceu "em estatura, sabedoria e graça".

Não se sabe bem porque, mas, depois de homem feito, assassinaram-no numa cruz. Apenas sua mãe chorou seu último suspiro.

Segundo dizem, foi assim que Deus se fez homem. E repetem que “não havia lugar para ele na hospedaria”. E, mais triste, ainda não há!

 

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