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por Lyndon Araújo Santos

 

Passados mais de um século da Proclamação da República, a sociedade brasileira pergunta se os seus ideais e os seus propósitos foram e têm sido realizados. A saber:

1.   A igualdade de todas e todos perante a lei;

2.   A isenção de privilégios de classes, grupos e categorias sociais;

3.   A livre expressão de ideias sem censuras e medos;

4.   O acesso universal à educação, moradia, segurança e saúde;

5.   O exercício da cidadania plena (política e social) por parte dos seus cidadãos e cidadãs;

6.   O respeito às diferenças e à diversidade;

7.   A distribuição igualitária de renda;

8.   O Estado laico.

Olhando para a sua história repleta de tensões a resposta fica distante de ser positiva. Foram ciclos de crises políticas e sociais causadas pelos conflitos de interesses entre as elites dominantes e por tentativas de exclusão de maior e efetiva participação política das classes subalternas e médias, tanto no campo como na cidade. Ao todo foram sete constituições, vários golpes e tentativas de golpes, uma guerra civil, pelo menos duas ditaduras e cinco presidentes que não completaram o mandato (sendo que um suicidou-se e dois saíram por impeachment).

A República herdou uma sociedade desigual, racista, sexista e marcada pelas práticas de corrupção em todos os níveis, e esta herança ainda permanece, sobretudo oprimindo os mais empobrecidos e as minorias. Mesmo havendo avanços em todos os níveis, este processo se caracterizou como sendo uma modernização conservadora, ou seja, moderniza-se mas se mantém os privilégios e as desigualdades.

No entanto, foram as forças e as pressões oriundas dos movimentos sociais, dos partidos políticos, dos sindicatos, das camadas médias urbanas e das populações periféricas submetidas à violência e à desigualdade, junto com as manifestações culturais ricas e plurais, que tornaram o Brasil uma sociedade paradoxalmente alegre e criativa, com uma capacidade de superação singular dos seus problemas mais agudos e estruturais.

Neste cenário, perguntamos: E os protestantes e evangélicos em relação à República? Inicialmente, foram apoiadores propositivos à República. Defenderam bandeiras como o voto feminino, a alfabetização universal e a educação, a democracia, o estado laico e a liberdade religiosa, influenciados pelo Evangelho Social das primeiras décadas do século XX. Fundaram igrejas, escolas, universidades, hospitais e uma imprensa crítica, inserindo no cotidiano outras práticas religiosas e sociais. De fato, em coerência com a história e o legado teológico reformado, quem mais deveria afirmar a res publica em seus propósitos e ideias mais humanos de justiça e de igualdade seriam os protestantes e evangélicos.

No entanto, sobretudo após o golpe de 1964 e o regime militar, os evangélicos, mesmo com exceções proféticas de lutas e resistências até hoje, tornaram-se aliados, em sua maioria, a um projeto de república excludente e mantenedor da desigualdade social. Esse posicionamento coincidiu com o crescimento numérico exponencial no período da Nova República (1988-2016), a conquista de espaço no campo político e midiático, e a hegemonia de um discurso fundamentalista e autoritário.

E, contrariamente ao seu legado reformado de liberdade de pensamento e de tolerância, os evangélicos em suas expressões eclesiásticas e manifestações no espaço público (político, cultural e midiático), posicionam-se reativamente contrários às necessárias mudanças e transformações sociais e políticas, na direção de uma sociedade mais justa, equânime e pacífica. Esta realidade evangélica mais ampla, entretanto, se contrapõe às muitas ações e práticas invisíveis à grande mídia, por parte de igrejas e de movimentos atuantes nas bases e nas periferias, servindo e cuidando das pessoas que sofrem injustiças e violências.

Eis, portanto, um tempo de autocrítica, de revisitação dos pressupostos reformados e de posicionamentos mais críticos ante as contradições de uma república que ainda não aconteceu. Isto para que “corra o juízo como as águas, e a justiça, como ribeiro perene” (Amós 5.24).

 

Brasil, 15 de novembro de 2016

Lyndon Araújo Santos

 

Lundon é pastor da Igreja Evangélica Congregacional de São Luis-MA, doutor em História, professor do Departamento de História da UFMA, desde 1995. Membro da FTL-Brasil. Natural do Rio de Janeiro, casado com Márcia Regina e pai de três filhas.

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